Simple Song - Passenger

          


             Estou em casa, com o volume do som no máximo enquanto tomo a minha taça de vinho diária. Acabo de chegar do trabalho e ligo o som para me acalmar do dia exaustivo de cirurgias. A medicina é o grande amor da minha vida. Apesar de morar só desde 2018, não me sinto solitária, já que tenho a minha grande profissão me acompanhando aonde quer que eu vá. Depois de oito anos formada, estudo todos os dias. Não me canso dessa rotina.

O som do banjo toca enquanto a chuva cai lá fora. Logo, penso em você. 


Há dois anos que ninguém mora mais em mim. Fábio, médico psiquiatra foi o grande amor que partiu da minha vida. Fizemos faculdade juntos e nos reencontramos quando começamos a trabalhar no mesmo hospital. Eu, pediatra, precisei contatar o setor de psiquiatria do hospital para lidar com o caso de um paciente, vítima de abuso sexual. Ele apareceu. Viu como todo o caso mexeu muito comigo e começamos a nos aproximar novamente. E não saiu da minha vida até pouco tempo atrás. 


Ele se mudou para o México no final de 2018 para exercer a profissão enquanto completava um projeto de pesquisa. Por motivos não cabíveis nesse texto, não pude ir junto. Voltou para o Brasil esse ano com a tese de doutorado pronta e uma mexicana a tiracolo. 


O retorno dele mexeu comigo, não posso negar, mas compreendi que o que era pra ser meu estava guardado. Não acredito em um único amor para a vida inteira, mas com ele parecia fácil pensar assim. Ainda sinto um frio na barriga quando o vejo passando pelos corredores do hospital, mas não posso admitir que isso tire da minha cabeça a única coisa que realmente importa para mim: a minha profissão.


Fujo dos meus devaneios quando a campainha toca. Estranho. Não espero ninguém. Abro a porta e encontro uma caixa vermelha, com uma garrafa de vinho tinto, duas taças e uma carta, escrita com aquela letra inesquecível. “Here’s a simple song”, começava a carta com a caligrafia da pessoa que destruira meu coração há pouco tempo e “won’t stop the rain from coming down or your heart from breaking”, continuava. Por coincidência, ou não, era a música que tocava no último volume do meu rádio. Como saberia que, depois da sua partida, essa música havia sido sua, por tanto tempo? Foi ela quem me acolheu quando você não estava aqui para fazê-lo. Começo a chorar e ele sai do elevador.


Entra no hall de entrada do meu andar e, sem falar nada, olha para mim, como se quisesse se desculpar por algo. Ele nada me deve, mas, ainda assim, mantém o olhar mais angustiante da nossa história. 


Ele não fala nada. Continuo a ler a carta.


Helena, sei que não deveria aparecer aqui do nada - ele começa a falar. Eu, em meio às lágrimas, só consigo dizer: não deveria!


  • Mas eu não consigo parar de pensar em você desde que eu retornei para o Brasil.


  • E o que eu tenho a ver com isso? 


  • Eu terminei com a Cristina. 


  • E o que eu tenho a ver com isso?


  • Deixa de ser grossa. Tô tentando te dizer que fiz isso por você, porque eu sou um louco, completamente apaixonado por você.


  • Você sabe o que aconteceu antes de sair daqui. As circunstâncias nos mostravam que cada um precisava seguir o seu caminho. Combinamos de que, quando você retornasse, conversaríamos para ver o que poderíamos fazer. Mas você sequer me deu uma chance.


  • Eu não sabia que ia acontecer algo com ela.


  • Você foi solteiro. Não me deve satisfações. Só que eu te esperei no aeroporto. E te vi sair abraçado com ela.

  • Eu tô aqui agora.


  • Mas você sabe se eu estou? E se eu tiver alguém? Ou se eu simplesmente não quiser mais?


  • As circunstâncias não me mostram isso... - ele diz, enquanto enxuga as minhas lágrimas com os dedos.


Não saem mais palavras da minha boca quando o choro começa a aumentar. Ele me abraça. Sinto o cheiro do perfume amadeirado que eu tanto gosto no abraço mais gostoso em que eu já estive. 


  • Me deixa entrar. Vamos tomar um vinho, conversar - Ele pede enquanto se afasta e acaricia o meu rosto.


  • Fábio, eu não posso fazer isso comigo mesma. Isso é auto sabotagem.


  • Amar é sabotagem? Olha só, adquiri uma nova definição aqui! - Ele diz com um sorriso cínico enquanto olha para a minha boca.


  • Escuta aqui: eu tenho 32 anos, não tenho mais paciência pra esse tipo de coisa!


  • Eu não vim aqui para brigar. Vim pra gente ter a nossa conversa.


  • Nove meses depois? Eu acho que você está um pouco atrasado!


  • Nunca ouviu dizer que o tempo arruma um jeito de um casal verdadeiro ficar junto?


  • Mas que tempo é esse que só beneficia uma das pessoas?


  • Helena...


Volto a chorar e, dessa vez, ele cessa o meu choro com um beijo. Daqueles que te tira o chão, que arrepia a nuca, que esvazia o estômago e te faz fraca. Eu me afasto.


  • Você está se aproveitando desse momento delicado. 


  • É delicado para nós dois, Helena. Não estou me aproveitando de nada. Eu só quero conversar com você, quero tentar ter o “nós” de novo.


  • Sinto muito, Fábio. Mas para mim não dá… - entro no apartamento e tranco a porta. 


Faço a tal descida dramática na porta, bastante comum em filmes de romance, mas só percebo depois de cair no chão, chorando sem parar. O banjo continuava a tocar. A música estava se repetindo, pelo visto. 


Começo a pensar em tudo, o quanto fomos felizes, o quanto sofri com sua ausência e a analisar se valeria a pena passar por tudo isso novamente. Ele estava solteiro. Conheceu a mexicana. Se apaixonou por ela. Não me avisou que não teríamos a conversa combinada, não me avisou para eu não perder meu tempo para ir até o aeroporto. Afinal, ele não me devia satisfações, né?! Mas a nossa história foi tão linda. Tudo muito delicado. Nos separamos por conta do destino. E nós dois sabíamos que ainda nos amávamos. Lembro de como me senti quando ele me beijou há cinco minutos e, então, tudo parece claro.


Abro a porta e o encontro sentado no chão chorando enquanto olhava para o nada.

Sento em frente a ele e digo: - um pouco de vinho não faz mal a ninguém. Entre. - Ele abre a boca e dá aquele sorriso mais encantador do mundo. O beijo. E então sabemos que o amor para a vida toda existe, sim.


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